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FALTAM
EMPREGOS E SOBRAM VAGAS
Por
José Pastore
Não
há família que não tenha um ou mais
membros desempregados ou trabalhando precariamente no
mercado informal. Ao mesmo tempo, milhares de postos de
trabalho estão abertos por falta de qualificação
dos candidatos.
Esse
é o Brasil. É sempre assim: qualquer surto
de crescimento, esbarra com uma séria falta de
pessoal qualificado. O ano 2000, que começou acelerado,
levou muitas empresas a tentarem ampliar seus negócios.
Andando pelo interior do estado de São Paulo, notei
que muitas delas não conseguiram trabalhadores
qualificados na localidade ou na região e nem mesmo
no ABC paulista que sempre teve um grande contingente
de operários qualificados. Na época, as
montadoras de automóveis estavam trabalhando com
jornadas turbinadas, tendo recrutado todos os trabalhadores
disponíveis na região, não sobrando
nada para quem vinha de fora em busca de qualificação.
Resultado: as empresas do interior não puderam
expandir.
Nestes
dois últimos anos, quando as excelentes oportunidades
internacionais fizeram crescer a manufatura exportadora
e o agro-negócio, o mesmo fenômeno ocorre.
As indústrias não acham quem procuram. Grande
parte dos novos contratados são trabalhadores de
baixa qualificação, para fazer serviços
gerais, ganhando entre 1 e 3 salários mínimos.
Mas, para preencher os níveis de maior qualificação,
as dificuldades são imensas.
A
falta de pessoal qualificado é problema para as
áreas de administração, contabilidade,
tesouraria, recursos humanos, relações do
trabalho, comércio exterior, importação,
artes gráficas, desenho industrial, engenharia,
hotelaria, biotecnologia, fisioterapia, nutrição,
odontologia, logística, transportes, automação
industrial, mecânica de aviação, supervisão
de produção, técnico de embalagem,
gerente industrial, técnico em usinagem, vários
outros tipos de técnicos industriais, advogados
com especialização, pessoal de tele-marketing,
professores de idiomas, física e matemática
e inúmeras outras.
Por
força das inovações tecnológicas,
dos novos métodos de produzir e da crescente concorrência,
o mercado de trabalho tornou-se mais exigente. Em 2004,
98% das vagas das regiões metropolitanas, foram
preenchidas por pessoas que tinham onze anos de escola
ou mais – ensino médio.
Isso
contrasta com a realidade da oferta. O Brasil tem ainda
12% de analfabetos absolutos e 60% de analfabetos funcionais
que, apesar de terem cursado a escola, têm sérias
dificuldades para entender o que lêem e fazer cálculos
elementares.
Nessas
condições, a sua empregabilidade se reduz,
mesmo porque o mercado busca outras características
além da boa formação profissional.
Nos dias de hoje, não basta ser adestrado; é
preciso ser educado. O adestramento ensina a pessoa a
fazer uma coisa só para o resto da vida. A educação
prepara a pessoa para apreender continuamente, o que é
fundamental para acompanhar as mudanças meteóricas
que ocorrem no setor produtivo.
Para
um jovem entrar no mercado de trabalho, não basta
ter o diploma; é preciso ter respostas. Além
disso, espera-se que o candidato tenha as condutas adequadas
para garantir produtividade, competitividade e os próprios
empregos, tais como: bom senso, lógica de raciocínio,
capacidade de trabalhar em grupo, habilidade para se comunicar
e entender o que lhe é comunicado, domínio
de mais uma língua além do português
e da informática, ter gosto pelo que faz, amar
a profissão, comprometer-se com a tarefa, ter disciplina
em todos os aspectos, ser obsessivo para se apreender,
carregar nas veias o vírus da curiosidade, ter
garra no que executa, enfim, ter a ética do trabalho.
Ou seja, a dimensão atitudinal é tão
importante quanto a cognitiva.
Tudo
isso nos coloca diante da difícil batalha da qualidade
do ensino. Nos últimos anos, conseguimos colocar
todas as crianças na escola -, e isso foi positivo.
Mas é triste saber-se que só 50% terminam
as oito séries do ensino fundamental. E que apenas
35% estão no ensino médio e 9% no superior.
O
Brasil está muito atrasado nesse campo. Sem buscar
comparações longínquas, basta ver
que no Chile, entre os jovens da faixa etária apropriada,
90% estão no ensino médio e 30% cursam as
universidades.
Tirar
o atraso na educação brasileira vai levar
uns 15 ou 20 anos se começarmos a trabalhar seriamente
desde já. Mais importante que um adicional de recursos,
é a melhor aplicação dos mesmos.
Isso é essencial.
Muitos
argumentam que educação não gera
emprego. É uma meia verdade porque o seu efeito
indireto é estimulador do emprego pelo simples
fato de que a boa educação atrai os investimentos
e estes garantem novos postos de trabalho. Educar adequadamente
é garantir o progresso de qualquer Nação.
Deixar de educar é perder o passado e eliminar
o futuro.
Publicado
em O Estado de S. Paulo, 20/09/2005
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