INVESTIR NOS POBRES
Por Robert J. Shiller
A maioria das pessoas acredita que o mundo das finanças não se preocupa com o povão, com as pessoas de baixa e média rendas que, afinal de contas, pouco contribuem para a lucratividade.
As enormes companhias contemporâneas e os magos financeiros que as conduzem - ou as compram e vendem - podem ser generosos para com suas igrejas, organizações beneficentes favoritas, famílias e amigos, mas suas vidas profissionais são definidas exclusivamente pela busca incessante de lucros.
Essa percepção pode ser em larga medida verdadeira, mas não inteiramente real. Considere Muhammad Yunus, que ganhou o Prêmio Nobel da Paz em outubro passado. Seu Banco Grameen, fundado em 1976 em Bangladesh, oferece microempréstimos a algumas das pessoas mais pobres do mundo, ajudando a tirar muitos tomadores de empréstimos da pobreza. O banco realizou lucros e cresceu ao longo dos anos - e inspirou esquemas similares de microcrédito em outros países.
Mas teria sido ganhar dinheiro a motivação última de Yunus? Em entrevistas, ele revelou ter sido, em verdade, motivado por uma profunda empatia com o sofrimento dos pobres em seu país. Seu objetivo de construir uma lucrativa atividade financeira parece ter refletido um desejo de acreditar na confiabilidade de seus clientes. Ele tentou realizar lucros praticando microfinanciamentos com o objetivo de provar a credibilidade financeira de pessoas marginalizadas, de modo que pudesse continuar emprestando a elas.
Paradoxalmente, então, enquanto Yunus buscava realizar lucros, ele estava, aparentemente, não fazendo isso por dinheiro. E existem outras pessoas, no setor das finanças, analogamente motivados.
Com efeito, a história das instituições financeiras voltadas para pessoas de baixa renda é em larga medida um histórico de movimentos filantrópicos ou idealistas, não apenas de atividades centradas inteiramente em lucros. O movimento cooperativo nos séculos XIX e XX foi associado a uma longa lista de instituições financeiras e seguradoras - como operadores de cadernetas de poupança, bancos imobiliários e associações de poupança e empréstimo - para ajudar os desfavorecidos.
Se programas governamentais que estimulam pessoas de renda baixa a poupar não imobilizarem o dinheiro por muitos anos, elas acabam gastando frivolamente.
Esse tipo de financiamento filantrópico persiste atualmente. Peter Tufano, um professor de finanças na Harvard Business School, vem atuando discretamente, sem fins lucrativos, por meio da fundação que criou, a Doorways to Dreams (Portais de Acesso a Sonhos), para ajudar pessoas de baixa renda a melhorarem suas perspectivas financeiras. Até onde pude perceber depois de conversar com Tufano, seu propósito é inteiramente moral. Ele não parece importar-se em ganhar dinheiro para si próprio.
Segundo Tufano, o problema fundamental para incentivar pessoas de baixa renda a poupar é que elas precisam de dinheiro não apenas para tocar suas vidas em anos futuros, depois que se aposentarem, mas também para enfrentar crises de curto prazo. Mas se os programas governamentais criados para estimular pessoas de baixa renda a poupar não imobilizarem o dinheiro delas por muitos anos, até o momento de sua aposentadoria, elas freqüentemente sucumbem à tentação e gastam o dinheiro frivolamente.
Tufano aborda o problema com real simpatia por essas pessoas e com uma idéia realista sobre como ajudá-las: "títulos de poupança premium". Além do pagamento normal de juros, esses títulos são vinculados a uma loteria - uma maneira de estimular as pessoas a manterem seu dinheiro numa poupança. Pessoas de baixa renda evidentemente gostam de loterias, e assim adquirem o hábito de esperar ansiosamente as datas de futuros sorteios, e isso as dissuade de converter seus títulos em dinheiro. Mas se surgir uma emergência real, elas podem sacar seu dinheiro.
De fato, títulos vinculados a loterias têm uma longa história. Em 1694, o governo inglês emitiu um título com rendimento de 10% e 16 anos de maturação denominado "Aventura do Milhão", que sorteia prêmios anuais entre os portadores dos títulos. Nessa mesma abordagem, o governo de Harold MacMillan criou um programa de títulos vinculados a loterias - denominado "títulos premium", ou "poupando com emoções" - no Reino Unido em 1956. O programa foi, inicialmente controvertido: muitos o consideraram imoral, devido ao vínculo com jogos de azar. Mas o programa cresceu, e hoje os títulos premium estão presentes na caderneta de poupança de 23 milhões de pessoas, quase 40% da população do Reino Unido. Além da Suécia, outros países também adotaram esse esquema.
Mas embora esse tipo de títulos tenham tido sucesso em elevar as taxas de poupança nos países que os criaram, eles não têm defensores nos EUA. A estratégia de Tufano para mudar isso é testar suas idéias em parcerias com instituições financeiras. Ele inaugurou testes piloto de contas de poupança vinculadas a prêmios em cooperação com a Centra Credit Union, com sede em Columbus, Indiana. Se o produto ajudar as famílias a poupar, ele tentará convencer os legisladores a facilitar a oferta desse tipo de esquema de poupança nos EUA.
Tufano é o primeiro a admitir que algumas das melhores idéias de inovação financeira são bastante antigas, remontando a até mesmo centenas de anos de existência. Elas podem sumir durante algum tempo, e inicialmente podem soar estranhas quando redescobertas, mas pessoas como Yunus e Tufano mostram que os esquemas podem ser atualizados e colocados em prática com a ajuda de defensores desinteressados, mas fervorosos. O espírito inerente de boa vontade, e a boa vontade que eles podem inspirar em outros profissionais do mundo financeiro, gera a esperança de um futuro mais promissor para todo mundo, especialmente aqueles mais necessitados.
Robert J. Shiller é professor de economia na Universidade Yale, economista-chefe da MacroMarkets LLC, da qual foi um dos fundadores (visite macromarkets.com), e autor de "Irrational Exuberance" e "The New Financial Order: Risk in the 21st Century"
Publicado no Valor Econômico em 18 de janeiro de 2007
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