Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Aparelhos Elétricos, Eletrônicos e Similares, de Aparelhos de Radiotransmissão, de Refrigeração, Aquecimento e Tratamento de Ar, Lâmpadas e Aparelhos Elétricos de Iluminação de Curitiba e Região Metropolitana

ENTRE A GLOBALIZAÇÃO E O EMPREGO

Editorial da Gazeta Mercantil

O mercado de trabalho no Brasil convive com grave impasse: os setores mais intensivos de mão-de-obra são os que mais perdem com a competição estrangeira. Isto é, os setores que empregam um terço dos trabalhadores da indústria são os que mais sofrem a pressão da globalização. Apenas em 2006, a indústria de vestuário perdeu 5,4% dos postos de trabalho, a de calçados, acusou perda de 13,2%, e a têxtil, 1,4%. A contrapartida deste processo aparece nos setores em expansão exportadora; a metalurgia avançou 1,8% na oferta de trabalho, a extrativa mineral, 3,7% e a indústria de meios de transportes expandiu 2,6%. O problema é que nos últimos cinco anos, os setores exportadores foram responsáveis pela abertura de 47 mil vagas, enquanto os setores mais intensivos fecharam mais de 250 mil empregos. Os dados foram totalizados a partir das pesquisas mensais do IBGE.

O mais relevante neste levantamento é que apesar da perda de postos, os setores intensivos seguem sendo os maiores empregadores do País. Por exemplo, vestuário e calçados, mesmo com quatro anos consecutivos de diminuição de postos, ainda respondem por 15% das vagas. Móveis e têxteis absorvem mais de 10% dos empregos industriais. Por outro lado, os maiores exportadores, a indústria extrativa mineral, de aço, de automóveis, de celulose e de diferentes commodities têm baixa participação no emprego industrial. Minério de ferro e petróleo respondem juntos por apenas 2,1% dos empregos industriais. A metalurgia, mesmo com a alta nos preços do aço, corresponde a menos de 3% dos postos. E meios de transporte, com forte avanço de participação na pauta de exportação, é responsável por apenas 1,3% dos trabalhadores.

O curioso neste processo é que o mercado de trabalho brasileiro está em rota de recuperação, depois de longo período de turbulência. Em dezembro, estudo do economista Antonio Prado do BNDES mostrou que a oferta de trabalho estava em seu melhor momento em 2005, em relação a todo o ciclo com fortes oscilações iniciado em 1993. Prado usou a proporção entre abertura de vagas frente ao crescimento do PIB para construir a comparação. Nos anos 80, cada ponto de expansão do PIB representava 1,2% de alta na ocupação dos trabalhadores. Este percentual caiu muito entre 1993 e 1997, para apenas 0,3%, isto é, cada ponto no PIB significou expansão de três décimos no emprego. De 1999 a 2005, voltou a crescer e atingiu no último ano deste ciclo o índice de 0,7% na expansão no emprego por ponto de subida no PIB.

A oscilação apontada pelo economista do BNDES exibe o que aconteceu no mercado de trabalho a partir da abertura internacional da economia brasileira, com benefício de alguns setores e prejuízo de outros.

No entanto, de 1996 a 1999, como revelou estudo do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV), ocorreu uma redução de 1 milhão de empregos formais no Brasil. De 2000 a 2005, ocorreu o inverso: expansão de 5,4 milhões no emprego formal. A simples aceleração no ritmo de crescimento da economia não é explicação suficiente para este movimento. A pesquisa da FGV também mostrou que a virada no emprego formal, de abril de 2004 a abril de 2006, foi puxada pela indústria de transformação, com multiplicação da oferta de vagas nos grandes centros metropolitanos.

Como explicar este fenômeno, se a indústria com maior absorção de mão-de-obra fechou tantos postos de trabalho, como mostram os dados do IBGE? Uma hipótese de explicação é a abertura de postos informais na direção do consumo do mercado interno, estimulado pela recuperação real dos salários, começando pelo avanço no poder de compra do salário mínimo.

Por outro lado, os baixos índices de automação e a modesta qualificação da mão-de-obra, além do câmbio, é claro, são elementos que explicam boa parte da perda de mercado externo da indústria com uso intensivo de mão-de-obra. Neste processo, no entanto, é apenas inútil investir contra o sentido da globalização, expressa pela perda de tantos empregos no Brasil, porque ela é inexorável. Melhor usar os dados para construir modos mais efetivos de gerar e proteger os empregos dos brasileiros. Apesar da globalização.

Publicado na Gazeta Mercantil em 06 de fevereiro de 2007