Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Aparelhos Elétricos, Eletrônicos e Similares, de Aparelhos de Radiotransmissão, de Refrigeração, Aquecimento e Tratamento de Ar, Lâmpadas e Aparelhos Elétricos de Iluminação de Curitiba e Região Metropolitana

UMA FESTA DO GOVERNO

Editorial do Estado de São Paulo

O Dia do Trabalho, este ano, foi um sinal dos tempos no Brasil. São tempos em que a hegemonia pessoal do presidente da República sobre as forças políticas e os atores sociais excede de longe a de qualquer líder eleito pelo voto direto no País. A situação de Lula é inegavelmente singular. No Congresso, aplastada pelo corpanzil da maioria governista de 11 partidos, a oposição passa mais tempo brigando entre si, ou flertando com o presidente, do que tentando achar uma passagem para se lhe contrapor, com programas e práticas que transmitam ao grosso da população a idéia de que outro mundo é possível, além do lulismo.

No âmbito da sociedade, apenas o Movimento dos Sem-Terra (MST), cuja desenvoltura nas contumazes agressões ao estado de direito ultrapassa um limite depois do outro, poderia ser identificado como fonte de contestação ou desafio à autoridade presidencial.Em termos, porém: sabendo que dependem do dinheiro do governo para sobreviver, os chefes emessetistas pensarão várias vezes antes de romper a corda que os une ao Planalto. Coroando a supremacia de Lula, até mesmo as clássicas reivindicações trabalhistas foram mantidas a distância dos palcos do 1º de Maio. As maiores centrais obreiras, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a Força Sindical - historicamente rivais -, resolveram como que de comum acordo não aborrecer o sindicalista-presidente com demandas por mais empregos e melhores salários. A relativa bonança dos assalariados - o emprego formal cresce há 3 anos, 85% das categorias receberam reajustes acima da inflação, o salário mínimo da era Lula acumula 28% de aumento real - explica, mas só em parte, a conduta chapa-branca das lideranças sindicais.

Tão ou mais decisivo para esse apaziguamento, além dos cofres fornidos das suas organizações, foi a esperta decisão de Lula de abrir espaço no governo não só para a CUT, mas também para a Força Sindical. Se os cutistas têm o Ministério da Previdência, na figura do sindicalista Luiz Marinho, a Força foi contemplada com a Pasta do Trabalho, entregue ao deputado Carlos Lupi, correligionário no PDT do líder da Central, Paulo Pereira da Silva. Dos notáveis da Força, ele foi o último a aderir a Lula.Mas como aderiu! No 1º de Maio de 2006, lembra o jornal Valor, ele dizia que Lula “está vivendo no mundo da lua”. Agora, diz que o governo seria “perfeito”, não fossem os juros. De seu lado, o ministro Lupi explicou candidamente por que falar mal do governo no Dia do Trabalho seria uma impropriedade. Antes, argumentou, para as Centrais Sindicais serem ouvidas em Brasília, “só com greve”. Não é bem assim. Se esse último recurso se tornou dispensável, não é exatamente porque agora o governo “dialoga com as centrais”, mas porque hoje elas tomam assento à mesa do poder, nas pessoas de seus ministros.

O que remete a mais um paradoxo dos tempos atuais no Brasil. A meta maior do sindicalismo que Lula criou e encarnou era romper com o padrão getulista de atrelamento da classe trabalhadora ao poder estatal, para ser usada como massa de manobra mediante os pelegos eternizados na boléia das entidades sindicais. E, efetivamente, no lugar da mais espessa correia de transmissão das vontades do governo no setor - a Confederação Geral dos Trabalhadores - surgiu a Central Única dos Trabalhadores, a primeira grande associação nacional de assalariados verdadeiramente independente do governo. Mas Lula incorporou as centrais ao governo - garantia de que a reforma trabalhista permanecerá engavetada e de que o Imposto Sindical, anátema para o novo sindicalismo de outrora, se perpetuará, com a anunciada transferência às centrais sindicais de metade da fatia do butim apropriada pelo Estado. Do que poderiam a CUT e a Força se queixar? Por outro motivo ainda, a data foi um sinal dos tempos. Desde 1976, quando chefiava o então Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, só duas vezes Lula deixou de comparecer à missa pelo Dia do Trabalho, na cidade. Em 1980, porque não pôde: estava preso. Este ano, porque não quis, mandando dizer que sempre considerou a sua ida ao evento apenas um “compromisso familiar”. A ausência de Lula não é um detalhe. É um marco na sua ruptura com uma história da qual ele se desfaz, ao se considerar credor de todos e devedor de ninguém.

Publicado no Estado de São Paulo em 03 de maio de 2007