1º DE MAIO: A PASSAGEM DO TEMPO
Por Boris Fausto
O JORNALISTA Edgard Leuenroth, que, acima de tudo, foi um exemplar líder anarquista de São Paulo, costumava contar uma história a jovens militantes, isso há uns 50 anos, sobre as celebrações do 1º de Maio em época anterior a 1930.
Tentando resumir, Leuenroth dizia que, na véspera do Dia do Trabalho, a polícia prendia, como prevenção, os militantes anarquistas mais conhecidos. Presos, mal dormiam, na expectativa do que aconteceria pela manhã, bem cedo. Quando tudo ficava em silêncio, quando o apito das fábricas não cortava o ar, comemoravam atrás das grades, na certeza de que dera certo a greve geral anunciada nos panfletos e preparada com muito cuidado.
A cena, até certo ponto idílica, embelezada pela memória, dá margem a alguns retoques. Os militantes eram puros e duros, mas, afinal de contas, seres humanos, com todas as suas virtudes e fraquezas; a classe trabalhadora era quase carente de direitos, e os anarquistas, ao contrário do que alguns historiadores chegaram a pensar, nunca passaram de um pequeno grupo, mais significativo pela contracultura do que pela atuação política, com uma influência difusa entre os operários imigrantes.
A história contada por Leuenroth me veio à mente quando lia o relato das comemorações do 1º de Maio deste ano em São Paulo. Que distância no tempo! A partir de 1930, com a ascensão de Getúlio Vargas ao poder, a legislação trabalhista foi sendo gradativamente implantada, os sindicatos - sob controle do Estado- foram legalizados e sustentados pelo imposto sindical, alguns direitos sociais estenderam-se bem depois aos sempre esquecidos trabalhadores do campo.
Alguns traços das comemorações do 1º de Maio deste ano representaram uma continuidade com o que ocorreu em anos anteriores. Assim, a hoje consolidada transformação de um dia de luta em um dia de festa, cujas maiores atrações são os sorteios de prêmios valiosos - como automóveis e apartamentos- e um show de cantores populares. A muito custo os sindicalistas conseguem intercalar algum discurso, no qual a retórica estridente mal oculta o vazio de conteúdo.
Censurar a massa popular por esse comportamento não faz sentido, pois a tendência à despolitização e a busca de alcançar a realização de sonhos individuais fazem parte de todo o universo social, e não deste ou daquele segmento.
Mas surgiu na festa um traço novo. Pela primeira vez, as duas maiores centrais sindicais - a CUT e a Força Sindical -, embora realizassem eventos separados, colocaram-se ao lado do governo. Há boas razões para isso.
Na verdade, a elite sindical, em grau variável, chegou ao poder. Em grau variável, pois uma coisa é a inserção governamental de quadros provenientes da CUT, e outra, a da Força Sindical, que tem vinculação estreita com o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, detentor da chave do Fundo de Amparo ao Trabalhador.
De sua parte, apesar das repetidas afirmações dos primeiros meses de seu primeiro mandato, o presidente Lula "se esqueceu" das reformas trabalhista e sindical que, hoje, a rigor, se resumem à proposta de repartir uma parte do bolo do imposto sindical entre os sindicatos e as centrais.
Isso não significa, é claro, que tenha sido finalmente implantada a república sindicalista, objetivo dos populistas radicais no passado e fantasma exorcizado, pela via do golpe, pelos militares e as hostes conservadoras.
Vários setores do governo, especialmente os da área econômico-financeira, estão bem distantes da origem e da visão de mundo do sindicalismo. Mas a ideologia e os métodos dominantes nos meios sindicais explicam muito de certas características do atual governo, a começar pelo presidente da República.
Assim, não há nada de surpreendente no léxico do deputado e líder da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, que trata de dar "dignidade" ao tema do meio ambiente, transformando-o de "coisa de veado" em coisa de macho a ser encampada pelos trabalhadores. Nem deve nos surpreender as propostas autoritárias que surgem de tempos em tempos. Por ora, a última foi a do deputado e ex-líder sindical Ricardo Berzoini, que sonha controlar a mídia em época eleitoral, "para evitar abusos".
Lembro, saudosamente, a figura de "seu" Frias, que, com sua tenacidade empresarial e sua pertinácia na construção de uma imprensa independente, aberta a muitas vozes, legou ao país um jornal tão importante como a Folha de S.Paulo.
Boris Fausto, historiador, é presidente do Conselho Acadêmico do Gacint (Grupo de Conjuntura Internacional) da USP
Publicado na Folha de São Paulo em 09 de maio de 2007
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