Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Aparelhos Elétricos, Eletrônicos e Similares, de Aparelhos de Radiotransmissão, de Refrigeração, Aquecimento e Tratamento de Ar, Lâmpadas e Aparelhos Elétricos de Iluminação de Curitiba e Região Metropolitana

NEOPELEGUISMO

Editorial de O Globo

A estrutura sindical brasileira, montada no varguismo sob inspiração da fascista "Carta del Lavoro", da era Mussolini, atrelou os sindicatos ao Estado e, assim, converteu parte da chamada sociedade civil organizada em massa de manobra de governos. E vice-versa, ou seja, alguns governos, por sua vez, tornaram-se instrumentos da parcela de trabalhadores representados por esses braços paraestatais que são os sindicatos.

O novo sindicalismo, surgido no ABC paulista a partir do final da década de 70, e cujo símbolo seria o metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva, nasceu com a promessa de enterrar a herança do trabalhismo varguista. Antes da criação do PT, por aquelas mesmas forças políticas aparentemente renovadoras, os novos sindicalistas pregavam contra o imposto sindical compulsório, queriam romper com o monopólio nas bases sindicais (a unicidade) e juravam manter distância do Estado.

Ao chegarem ao poder, tudo mudou. No primeiro mandato de Lula, com a criação do Fórum Nacional do Trabalho (FNT), já ficara evidente que nada se alteraria. Para começar, a reforma trabalhista, a via indicada para deixar o varguismo no passado, foi adiada indefinidamente, por pressão dos sindicatos representados naquela câmara de debates. Outro sinal claro de que o espírito da "Carta del Lavoro" continuaria intacto ficou exposto numa proposta de reforma sindical elaborada pelo Fórum, em que se manteve a ligação das entidades com o Estado. Hoje, o projeto repousa em alguma gaveta no Congresso.

O FNT, onde as entidades patronais também eram representadas, ficando o governo no papel de mediador - como previsível, um mediador do lado dos sindicatos -, terminou controlado pelas centrais, com a ajuda do então poderoso secretário-geral do Ministério do Trabalho, Barjas Negri, revelado mais tarde como um dos "aloprados" do escândalo do dossiê fajuto contra tucanos de São Paulo.

A mais recente prova da sociedade das centrais com o governo Lula, e demonstração de como estão solidamente presentes dentro do Estado, é a decisão de se transferir para elas parte do imposto sindical, tão criticado tempos atrás por lideranças que hoje sentam praça em gabinetes em Brasília. Institui-se, então, o neopeleguismo, regime em que sindicatos e lideranças sindicais manipulam recursos públicos ao bel-prazer. Não sem motivo o último 1º de Maio foi comemorado de forma inédita: sem discursos contra o governo. Afinal, as duas maiores centrais do país, a CUT e a Força Sindical, são governo, e nele estão representadas, no primeiro escalão, por Luiz Marinho e Carlos Lupi, ministros da Previdência e do Trabalho.

Soterra-se de vez qualquer esperança de reformas que quebrem o elitismo da CLT, por causa do qual menos da metade dos assalariados tem empregos formais. À elite do sindicalismo, com acesso facilitado ao Tesouro nacional, não interessa mudar.

Editorial

Publicado em O Globo em 15 de maio de 2007