PERDENDO A CORRIDA MUNDIAL
Por Jorge J. Okubaro
É frustrante. Um país que precisa crescer com rapidez e eficiência, para reduzir suas desigualdades e propiciar vida melhor a seus habitantes, descobre que no último quarto de século andou para trás, enquanto seus concorrentes avançaram a passos rápidos. O país, lamentavelmente, é o Brasil, e a fonte da informação é uma instituição internacional acima de qualquer suspeita, a Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Os dados sobre o Brasil, que fazem parte do relatório Principais indicadores do mercado de trabalho, assustam. Já seria ruim se o avanço do Brasil fosse mais lento do que o dos países industrializados ou em estágio de desenvolvimento comparável ao nosso. Mas a situação é ainda pior. O relatório mostra que o Brasil é menos produtivo hoje do que era há um quarto de século. Em 1980, o valor agregado à economia por um trabalhador brasileiro era de US$ 15,1 mil por ano; em 2005, tinha diminuído 2,7% para US$ 14,7 mil.
A distância do Brasil em relação aos países industrializados aumentou muito no período, pois quem já era bom melhorou. O país campeão mundial da produtividade pelos critérios da OIT (variação do PIB comparada com o número de trabalhadores empregados), os Estados Unidos, registrou, em 1980, o valor agregado de US$ 41,6 mil por trabalhador, número que subiu para US$ 63,8 mil em 2005, com aumento de 53,4%. Em 1980, a produtividade do trabalhador brasileiro correspondia a apenas 36,3% da do trabalhador americano, ou pouco mais de um terço, o que indicava um longo caminho a ser percorrido. Andamos para trás, pois em 2005 a relação tinha diminuído para 23%, ou menos de um quarto.
Perdemos também a corrida para nossos principais competidores. A China, que era o símbolo da ineficiência e só crescia pelo uso intensivo de mão-de-obra barata e mal treinada - pelo menos era assim que pensava a maioria de nós -, avançou de US$ 6,3 mil de valor agregado por trabalhador em 1996 para US$ 12,5 mil em 2006, com aumento de 98,4% em apenas dez anos. O brasileiro otimista poderá dizer: a média chinesa é menor do que a brasileira. É verdade, mas, se examinarmos as mudanças ocorridas nos últimos anos, será fácil concluir que é apenas uma questão de tempo, de pouco tempo, aliás, para sermos superados pela China também por esse critério.
O que deve causar mais estranheza nos números e nas tabelas do relatório da OIT é o fato de o Brasil ter ficado atrás de países latino-americanos, como Porto Rico, Chile, Argentina e Venezuela, e outros, como Irã, Síria e Bósnia. Na tabela, ficamos do lado de Uganda.
Não haverá erro nos números? Será que somos tão ruins?
Erro não deve haver. A OIT trabalhou com estatísticas oficiais dos países membros e comparou os resultados - ficamos em 65º lugar entre 124 países analisados, ou seja, na metade debaixo da tabela. Esses resultados são médias nacionais e, como toda média, encobrem situações discrepantes, como, no caso brasileiro, a produtividade de um empregado qualificado da Embraer e a de um agricultor que mantém um cultivo de subsistência numa região remota da Amazônia.
Não há dúvida de que, na economia brasileira, há vários segmentos com alto grau de competência e produtividade, em níveis comparáveis aos melhores do mundo. Na agropecuária, por exemplo, embora o resultado médio tenha melhorado nos últimos 25 anos, a produtividade continua baixa quando comparada com a dos países mais eficientes. Mas o Brasil não teria conquistado as fatias do mercado mundial que conquistou nos últimos anos em produtos como soja e derivados, carnes e açúcar e álcool, para citar apenas alguns exemplos, se não produzisse com eficiência. Também no setor industrial haverá exemplos para citar.
A baixa produtividade do setor de serviços no Brasil, de sua parte, provavelmente se explica pelo fato de, nesse setor, a atividade que mais vagas oferece ser a de empregado doméstico, função de baixa qualificação, baixa remuneração e baixa capacidade de agregar valor à economia.
Já o contínuo avanço da produtividade em economias avançadas, como a americana, se deve não só a sua capacidade de gerar conhecimento, tecnologia e produtos, mas também à estratégia de suas empresas de se concentrar em bens e serviços que resultem em maior valor agregado, transferindo para outros países as atividades que geram menos renda. Desse modo, os países avançados potencializam seus ganhos de produtividade.
Explicações como essas talvez nos deixem um pouco mais tranqüilos, pois nos abrem algum espaço para imaginarmos que nem todos somos tão ruins quanto o relatório da OIT nos apresenta. Mas o fato de não estarmos tão mal não nos autoriza a imaginar que o Brasil vai bem. Não vai, e o relatório da OIT nos diz explicitamente que o País está mal, e retrocedendo.
Como a economia brasileira está aquecida e os números da OIT resultam da relação entre crescimento da produção e número de trabalhadores, muito provavelmente os de 2005 para cá serão melhores. Bom no presente, o crescimento rápido pode ser ruim para o futuro, se servir de pretexto para os responsáveis pelas principais políticas públicas que garantem o crescimento se limitarem a colher os louros de hoje. Sem infra-estrutura adequada e sem sistemas financeiro, tributário e legal mais funcionais, o crescimento será sempre lento e intermitente. E, pior ainda, sem adequada educação da população, o País continuará a reproduzir a pobreza e a ineficiência, tão bem captadas pela OIT.
Publicado no Estado de São Paulo em 06 de setembro de 2007
|